domingo, 20 de abril de 2008

Parte II

_O fígado é nossa alma. A nossa mandíbula por dentro. _insistiu a Perna. Ela parecia só e triste, escorada no balcão. Vinha um cheiro escroto de sua necrose, que ela tratou logo de corrigir:
_Não é uma necrose, dessas de propaganda de cigarro, não. É um buraco mesmo, por onde respiro.
_Sim, claro!
_Claro não! Você achou que fosse uma necrose.
_Tudo bem, esquenta não.
Ele não acreditava que estava falando com uma perna. Madonna subiu no palco e fez seu número rotineiro, escalando o ferro com sua boceta. Parecia trinta anos mais velha e acabada. Os peitões arriados; cabelo curto, oxigenado. Uma visão dolorosa do Inferno. Um funcionário infeliz da Defesa Civil, em seu instante de graça, achou que podia enfiar a porra de sua língua porca no cu sujo da Madonna, mas acabou levando um ponta-pé nas fuças e sua noite acabou ali mesmo. Uma cena engraçada. Até a Perna riu. Depois disse:
_Mulher quando envelhece é uma porra mesmo, desaba o céu de sua vaidade. Paga uma dose pro seu velho!
Começava a gostar da Perna. pagou-lhe uma dose e apontou com o beiço para uma cadeira vazia. Queria ver até onde aquilo iria. Era só uma perna. Talvez fruto de sua imaginação embriagadamente perversa. Ela flexionou um pouquinho só o joelho e se encaiou direitinho na borda da mesa, e ficou lá se balançando. Era impressionante. M. pensou em puxar seu bloquinho de notas e anotar qualquer coisa, mas foi interpelado pela Perna:
_Agora me dá um pouco disso ai! Tive um dia péssimo!
_Como faço?
_Derrama um pouco aqui no buraco!
Fez o que ela mandou e a Perna onomatopeou um regozijo quase infinito. Inclinada para trás, junto ao ferro, Madonna seguia com seu show. Mostrava agora sua imensa xoxota encarquilhada, querendo engolir o mundo.

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