sexta-feira, 18 de abril de 2008

Parte IV

Fez parar um taxi e eles entraram. A Perna acomodou-se atrás com Madonna e M. seguiu na frente, ao lado do motorista.
_Para onde? _Perguntou o motorista.
_Toca pra frente!
Madonna esfregava-se loucamente na perna da Perna, arrancando gemidos dela. O motorista, um senhor de cinquenta e poucos anos, olhava assustado pelo retrovisor. Não aguentou por muito tempo, não. Virou-se para M. e perguntou:
_Aquilo lá atrás, meu patrão, é uma prótese?
_Não, senhor. É uma perna de verdade.
Ficou um instante em silêncio, depois observou tristemente:
_Minha velha perdeu as pernas num acidente de carro. As duas. deve ser muito difícil viver sem os membros. Sejam quais forem eles.
M. não disse nada. Fez ele parar um instante numa loja de conveniência aberta e saltou para comprar umas bebidas. Depois voltou e entrou no carro. Tudo muito rápido.
_Falta muito, gente boa? _Perguntou a perna lá atrás.
_Já estamos chegando. _Tranquilizou M.
_E fist, vocês curtem fist? _Perguntou Madonna com a voz arrastada e bêbada.
_Topamos tudo, não é companheiro? _Quis saber a perna.
_Sim, topamos tudo. _Confirmou M.
_Ééé... é duro viver sem os membros, companheiros, sejam quais forem eles. _Reforçou o motorista.
O taxi avançou na noite. Começou a chover fininho porque era dezembro. Os para-brisas ensaiavam uma dança macabra. Hipnotizadora. A avenida miseravelmente enfeitada de luzinhas natalinas ia ficando pra trás. As pessoas em seus pequenos arranha-céus, aguardavam o nascimento do salvador, enquanto o mundo se desmembrava. M. refletiu um instante, porque ainda parecia possuir um restinho de alma.

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