domingo, 20 de abril de 2008

A PERNA





















Por Márcio Santana


Foi a Perna, ela salvou a sua noite.
Eram duas daquela madrugada de dezembro quando M. recebeu aquela cusparada na cara:
_Não gosto dos teus escritos, não!
_Ah, não?
_Não. São vulgares e você força muito a barra.
_Forço muito a barra.
_Além do mais, que contribuição terão? _Pensou um pouco e disse: _Nenhuma! _Olhou um instante, muito sério pra M. e prosseguiu:
_A escrita, poeta, é um fluxo livre. _Fez um gesto nojento com as mãos. Havia uma mulher na mesa e ela dava uns risinhos.
_Fluxo livre...
_Sim, a escrita é um fluxo livre. _E ainda fez o favor de repetir.
_Vai mais uma ai na mesa? _Gritou o barman.
_Manda lá!
Houve então uma pausa e ele tornou outra vez:
_Já até me disseram que és um copioso!
_Um copioso...
A dona dele concordava com a cabecinha. M. olhou para ela. Era branquinha e delicada. Parecia feita de porcelana. Impossível de meter o seu pau ali dentro. Pensou. Foi servida a cerveja e ele olhou para as muitas garrafinhas sobre a mesa. O bastante para começar a odiar o mundo, as pessoas e a Deus. Arredou sua cadeira um pouco para frente e disparou:
_E você?
_Eu?
_Sim, você. Você já deu seu cu?
Tomou um susto: _Baixaria, pô!
_Deu ou não deu o seu cu?
A cara do outro azedou feito vatapá.
_Não te interessa, por que?
_Porque eu já dei o meu cu, você não?
_Problema seu!
_E a tua mãe? Já comeste a tua mãe?
_Ih, apelou! Vamos embora Paulo Henrique! _Falou a dona dele levantando-se bruscamante.
As pernas da mesa tremeram de rir; os copos cuspiram engasgados. Ele havia mordido o traseiro deles; enfiado seu nariz no buraco do cu deles e farejado suas almas nojentas.
_Não aguenta uma crítica desse palhaço ai! Desequilibrado! Escritorzinho de merda! Vamos embora, Paulo Henrique, paga essa porra e vamos embora!
_Escritorzinho de merda? Escritorzinho de merda sim, abençoado pelo grande ventre da merda de Deus, enquanto escrevo os anjinhos ficam acariciando os pentelhos do meu saco, ai quando eu gozo me encho deles e peço para eles meterem seus dedos angelicais no meu cu até fazer eu gozar, ai eu gozo nos cachinhos dourados de cada um deles _a porra escorrendo por suas carinhas de anjo, limpando seus acnes divinos, precisam ver _mas eu também chupo o pau de Deus e ele chupa o meu equando gozamos juntos banhamos essa cidade com nossos espermas sagrados, e tu fica ai babando os colhões desse pessoal da Academia, dando aulinhas de literatura na faculdade, escrevendo esses artigozinhos pro jornal falando de condição humana e não sei lá mais o quê, mercenariozinho de merda, a minha literatura tem sangue e cheira a fezes sim, e se o que eu escrevo não é literatura, eu tô cagando em cima do teu pau!
Conseguiu vomitar aquilo tudo. Bateram em retirada amaldiçoando ele. Teve que pagar a conta sozinho.
Vitorioso, M. desceu a Eduardo Ribeiro como um gigante pequeno, rumo ao puteiro. A noite ainda destilava seu veneno. Os hidrantes bombeavam macabrosamente a água que escorria para a boca dos bueiros, saciando a sede dos ratos. A lua era uma porcaria, mas começava a ficar tesuda. No balcão daquele stripper _um dos muitos armazens sujos do velho cais _M. pediu uma dose cavalar de conhaque negro. Cerveja, aquela altura, vomitaria a própria merda. foi quando ouviu uma voz:
_Não é assim que se aniquila o inimigo. tem que pisá-lo bem até esmagar sua cabeça. E ainda assim, tem-se a ilusão de matá-lo. O homem é como uma barata!
Olhou para o lado de onde vinha a voz e havia só uma perna. Uma porcaria de uma perna cabeluda, com um buraco no meio.
_Porra! _Disse M. _Só me faltava essa!! _E virou de uma golada só o seu conhaque (nunca façam isso!).

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